Algumas pessoas dizem que o medo está no coração do homem. Outros dizem que o medo está nas profundezas da mente. Eu digo que o verdadeiro medo está na ignorância, no desconhecido, no que não pode ser compreendido... o medo está um palmo além do nosso alcance.
Nem sempre eu pensei assim. Houve um tempo em que eu acreditava nas pessoas, acreditava na capacidade de pensar e na bondade implícita em cada ato. Tolo... Se ao menos eu conhecesse a verdade, talvez não estaria onde estou agora...
Tudo começou com uma idéia inocente de construir uma lan-house. Um negócio que, se bem administrado, poderia trazer bons lucros e era exatamente isso que minha família necessitava nesse momento. Meu pai aposentara há poucos meses e nós procurávamos algum ramo para investir o dinheiro recebido.
Uma lan-house era o mais apropriado no momento, pois eu já tinha conhecimento em computadores (e em jogos também) e poderia tranquilamente manter esse tipo de comércio funcionando em pleno vapor. Ledo engano. A palavra "tranquilamente" caberia em vários outros lugares, mas não aqui.
O verdedeiro medo se apresentou diante de mim já no primeiro ano de trabalho. Permita-me esclarecer que estou falando de um estabelecimento já frequentado por bandidos e traficantes (posteriormente banidos do recinto) e que já foi assaltado à mão armada duas vezes, então não venha me dizer que não sei do que estou falando.
Lembro-me com uma nitidez impressionante, como se estivesse assistindo à tudo novamente nesse momento.
Um garoto, em seus 12 ou 13 anos, aparentando vir de uma boa família e bem vestido (fique claro que para os padrões de uma lan-house, bem vestido quer dizer "usando calça e camiseta sem remendos"). Porém, algo me dizia para correr! Correr para longe e não olhar prá trás nem se o próprio Steve Jobs me chamasse! Não era sua aparência que me levava a ter esses pensamentos, era o seu olhar... como se ele fosse um exímio jogador de xadrez analisando cada possibilidade de acontecimento, só que não tivesse consciência de nada disso. Seus olhos olhavam cada um em uma direção e seu cabelo completamente desalinhado entregava que aquele garoto tinha um problema.
"Qual seu nome?"- Eu disse. Até hoje me arrependo dessa pergunta impensada.
"Hã? Hmm... Pedro."
"Tudo bem então, Pedro. Você vai jogar?"
"Hã? Agora?"- Não... na próxima era glacial...
"Sim. Vamos fazer o seu cadastro."
Eu sentia meu coração acelerando mas não sabia explicar o real motivo disso. Hoje percebo que meu corpo estava se preparando para reagir, carregando minha corrente sanguínea com adrenalida e deixando meus (poucos) músculos ativados para uma eventual emergência.
"Seu nome?"
"Hã... Pedro."
"Seu nome completo..."
"Hmm... Pedro... Souza Silva."
"Certo, Pedro. Seu endereço?"- E meu cérebro tilintava de agonia... meu olho esquerdo estava tendo espasmos cada vez menos intermitentes e eu ouvia um zunido alto como se alguém encaixasse um apito na saída de ar de uma turbina.
"Rua antonio lamino, 12."
"Você tem telefone?"
"Tenho!"
"Qual o seu telefone prá eu poder preencher seu cadastro?"
"É da vivo!"
Nesse momento meu universo explodiu. Luzes inexplicáveis surgiram no meu campo de visão e todos os espíritos de todos os meus ancestrais ressurgiram do além para segurar toda aquela energia negativa que acabara de ser disparada dos meus olhos na direção do garoto.
O chão tremeu, o céu ficou escuro e fumaça de enxofre era soprada de cada rachadura existente nas redondezas! O cavalo amarelo da morte estava me esperando há alguns metros dali como um cãozinho que acabara de apanhar com o jornal.
Subitamente o olhar ameaçador do garoto se transformou e me fitava como se pedindo clemência. As atrocidades que passaram pela minha cabeça fariam com que a inquisição parecesse uma sessão de massagem tailandesa. O clima tornara-se tão denso que era possível cortar o ar com uma daquelas facas de passar manteiga na torrada...
Aos poucos o terror se dispersou. O cheiro de morte e calamidade deu lugar ao bafo quente soprado pelos computadores e o odor de salgadinho emla-chips. O menino ainda me fitava, esperando uma reação minha. Era possível sentir sua alma clamando por misericórdia...
Depois disso, ele finalmente conseguiu me dizer o número do telefone dele e eu fui capaz de finalizar seu cadastro sem maiores danos à minha sanidade.
O verdadeiro medo está no desconhecido... o verdadeiro medo está no que não podemos compreender....
PS: O nome do indivíduo foi geneticamente alterado neste relato para preservar sua ignor... identidade.
segunda-feira, 19 de maio de 2008
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2 comentários:
heauehuahe xD
hauhauhahu porra cara vc pode ser a proxima J.K Roling!!! ahuahuahauh e ficar rico pacarai!!!!!! ahauhauh animal mesmo!!! rachei o bico aqui ^^
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