O homem atrás do balcão aparentava estar morto. Apesar de sentado com a postura correta e os olhos abertos, sua respiração estava muito devagar e ele já não se movia há alguns minutos. Fitava a porta de saída como esperando que a esperança entrasse e lhe desse um tapa na cara, ou como se a própria morte tivesse acabado de sair...
Uma gota de suor lhe escorreu pela testa. O telefone tocava incessantemente, mas ele nem se movia. Finalmente, o homem olhou para cima e balbuciou algumas palavras inaudíveis, como numa prece. Respirava devagar, profundamente. Num movimento preciso e leve, ele se colocou em pé e disse numa voz solene, que faria a mais solene das vozes parecer o grito de um gato sendo sufocado numa panela de pressão:
“P&*a que pariu!”
Tudo começara meia hora atrás, quando uma mulher com seus 40 anos de idade entrou pela porta da frente da mesma forma que um ninja entra numa sala escura com assoalho de algodão. Só foi possível perceber sua presença quando seu vestido azul florido desfilava entre os dois monitores que ficavam em cima no balcão.
Ela não olhava diretamente nos olhos da pobre alma que ia lhe atender. Sua boca se mexia, mas não saíam palavras, e nem era possível ler seus lábios pois suas mãos estavam em frente a eles.
”Moss... sss ... ... sssdar? Eu qss ver sssail...” - sibilou ela.
”Como? Desculpa, não consigo entender o que a senhora está dizendo...”
”Eu qss ver sssail!”
”E-mail?”
”...sssss...”
Depois de vários minutos de “diálogo”, interpretações e suposições da parte do atendente, ele foi capaz de desenvolver a vaga idéia de que a senhora queria ver seu e-mail, mas não lembrava da senha.
O pensamento de criar um cadastro para ela nem passou pela cabeça do atendente. A simples tarefa de entender o nome da senhora seria um pesadelo digno dos contos de Lovecraft. Apenas ligou um computador e colocou um cadastro especial usado para situações especiais... e essa era uma situação muito especial...
O fato de ela não lembrar a senha do próprio e-mail levaria qualquer pessoa a tentar recuperá-la. Porém, o destino não estava para brincadeiras hoje e colocara barreiras do tamanho de uma represa na frente do corajoso atendente.
”Vamos tentar responder a pergunta secreta e recuperar sua senha: 'Qual o nome da sua cidade natal?', muito bem, qual o nome da cidade onde a senhora nasceu?”
”Ai moss... eu sss .... sss.”
”A senhora vai ter que tirar a mão da frente da boca e falar um pouco mais alto!¨ Sentia-se um certo nervosismo na voz do rapaz.
”Moss... eu não lembro...”
Por Deus... a mulher não lembrava da própria cidade natal? O ar se tornava mais e mais pesado e um olhar de cansaço instalou-se no rosto do atendente imediatamente após essa resposta. Seu rosto lembrava o de um senhor idoso gripado, que trabalhou o dia todo na roça sob sol forte e sem almoço.
”Tá... não tem jeito então. Vamos ter que criar outro e-mail pra senhora.”
Nesse instante, uma lembrança distante veio em sua mente. Muitos anos atrás, sua mãe lhe chamara a atenção por ele ter dito algo que não devia. Ela se ajoelhou, olhou em seus olhos e lhe disse: “Filho... pense duas vezes antes de dizer alguma coisa.”
Subitamente, aquela importante lição de vida fez todo o sentido do mundo, mas o aprendizado veio tarde demais... ele se arrependeria amargamente pelo resto de sua vida por ter sugerido aquilo à senhora...
Foram momentos terríveis. O som abafado que saía da boca da mulher se perdia no meio do caminho até o ouvido do corajoso atendente e a cada minuto a situação tornava-se mais e mais insuportável.
Einstein tinha razão. O tempo não é uma constante e varia de acordo com o observador.
Depois de muita luta e de batalhas homéricas, o novo cadastro de e-mail da senhora estava pronto e ela estava se levantando para ir embora. Cabelos brancos haviam surgido na cabeça do nobre e cansado atendente, mas a tarefa estava cumprida.
A senhora levantou-se, agradeceu de forma muito sibilar e dirigiu-se à saída. Nem passou por sua cabeça cobrar pelo tempo utilizado no computador... ele só queria paz e tranqüilidade.
Com as últimas forças que lhe restavam, o nobre e desfalecido atendente arrastou-se até a cadeira detrás do balcão e ficou os próximos 20 minutos reunindo forças para expressar seus sentimentos...
“Put...”
quarta-feira, 16 de julho de 2008
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