Há muitos e muitos anos atrás essa humilde lanhouse foi agraciada com a presença magnânima de um homem. Ele nos trouxe trabalho, dores de cabeça e momentos de tensão como nenhum outro. Seu jeito desengonçado nos cativou tanto quanto uma topeira atropelada. Ele veio a ser conhecido como Cucumis.
A história tornou-se lenda. A lenda tornou-se mito. E eu digo que esse mito vive nas profundezas de nosso mais terrível pesadelo.
Essa história começa com uma de suas primeiras visitas, quando o mundo ainda era jovem. Era manhã e o recinto estava aberto há pouco menos de 10 minutos. Foi então que sua inconfundível caminhonete azul estacionou tortamente na frente do bicicletário, ocupando todas as vagas dos clientes desprovidos de veículo automotor.
Era sua segunda ou terceira visita ainda e não tínhamos muito contato verbal (algum tempo depois desenvolvemos um tipo de “monólogo” onde ele fala sem parar e eu concordo incessantemente). Ele apenas dirigiu-se ao balcão com seu estilo “vaca louca” de andar e despejou algumas moedas.
“Hoi. Doish vírgula chinco, por fahvor.”
Ponderei por alguns segundos até entender que ele não estava falando o número de seu cadastro, mas sim a quantia em dinheiro: dois reais e cinquenta centavos.
“Viuh, depoish dáh uma vigitada neshe shaite. Chama Cucumis.com. Éh um negóshio revolushionário. Milhões de tradutoresh tradugindo documentosh de grasha! É a grande revolushão. Ninguém pode pará-lo.”
Este foi o parágrafo que definiu seu codinome para o resto da vida.
Depois de alguns “hã” e “hmmm” de minha parte, Lord Cucumis dirigiu-se à estação e posicionou-se. Inseriu sua senha, seu código e logou no sistema sem maiores problemas.
Vendo que ele estava tendo sucesso nessa empreitada, me voltei a resolver os meus próprios problemas e voltei a matar os nazistas que insistiam em tentar invadir a Polônia no de meu computador.
Não percebi o tempo passar, mas diria que foram em torno de 20 a 30 minutos. Lord Cucumis levantou-se agitado, olhou em minha direção e disse com tom de poucos amigos:
“Vou mudar de máquinah. Aquih táh tudo de ponta cabesha.”
Neste momento vale dizer que já trabalho com manutenção de computadores há uns 6 anos e estou acostumado a resolver os mais diversos problemas que o nosso amigo Windows possa nos proporcionar. Quando ele disse essas palavras de que “tudo estava de ponta cabesha”, foi como um pulso elétrico percorrendo um circuito gigantesco em busca de uma resposta. De todos esses anos de problemas e soluções, nunca havia me deparado com algo desse tipo.
Esperei Lord Cucumis mudar sua posição para a estação ao lado e prontamente fui verificar qual era o problema da estação. Minha mente já viajava por nomes de vírus e problemas de registro que poderiam ter causado tamanha alteração no sistema.
Enquanto chegava mais e mais perto, minha vista embaçava. Sentia as pernas ficando fracas e os dedos dormentes. O tempo aparentava ficar cada vez mais e mais lento e o ar estava denso a ponto de eu ter que me atirar para frente a fim de avançar.
Quando cheguei à estação não pude acreditar.
No fundo de minha mente eu podia ouvir o grito de horror que meu subconsciente estava tentando expressar. O que eu estava vendo era inimaginável, impensável, imprevisível! Nem a mente mais doentia ou o profissional mais capacitado do mundo conseguiriam chegar a tal conclusão.
As palavras ecoavam em minha cabeça:
“Táh tudo de ponta cabesha...”
“Táh tudo de ponta cabesha...”
“Táh tudo de ponta cabesha...”
Eu só tive forças para um único ato: desvirar o mouse, que estava com o fio na direção contrária.
Fiquei alguns minutos me recompondo, tentando fazer a sala parar de girar e acumulando toda minha força nas pernas a fim conseguir andar novamente. Nem tentei imaginar como ele conseguiu clicar em algum lugar nesse tempo todo ou porque demorou meia hora para mudar de estação.
Um zunido forte estourava em meus ouvidos e eu via um borrão em volta das pessoas que passavam por mim. Não consigo me lembrar de quando Lord Cucumis foi embora, mas lembro de ouvir suas últimas palavras antes de sair:
“Tchau. Atéh amanhã.”
No dia seguinte, troquei o turno da manhã com meu irmão.
quinta-feira, 27 de novembro de 2008
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