O mal pode se apresentar de diversas formas. Pode aparecer na forma de um bandido para alguns ou na forma de um assassino psicopata. Mas para mim apareceu de uma forma muito mais aterrorizante... na forma de uma senhora de idade.
Tudo aconteceu numa manhã de quinta-feira. O clima não estava exatamente ensolarado, nem exatamente nublado, nem exatamente chuvoso, o clima estava somente aturável naquele dia. Não que eu me importasse com o clima, de forma alguma, mas naquele fatídico dia o clima foi em parte responsável por minha desaventurança.
O céu não dava sinais de chuva, mas mesmo assim entrou no recinto um enorme vestido florido (com uma cor que não me lembra nada além de uma cortina de sala de estar) com uma senhorinha em seus setenta e tantos anos de idade dentro dele. O seu jeito de andar dava a impressão de que ela era arrastada pela sacola de compras que carregava. Ela entrou e me olhou com um olhar desviado, como se focasse a visão na parede atrás de mim enquanto falava comigo. Seu cabelo, de alguma forma, estava bonito e sedoso, como se não pertencesse ali. Apesar da figura perturbadora, sua voz era calma e tenra.
"Nossa... parece que vai chover, né mocinho?" -Dizia ela enquanto olhava a rua.
"É..."
"O que é aqui? É videogueime?" -AimeuDeusdocéu...
"Bom, tem videogame sim. Mas a gente trabalha mais com computador e intern..."
Enquanto essa última palavra saia da minha boca, me dei conta do que acabara de fazer. O olhar dela se voltou para mim (ou para a parede atrás de mim) como se eu tivesse dito a ela que havia encontrado o elixir da juventude. Ela caminhou vagarosamente em minha direção, apoiou as mãos no balcão e disse: "Tem internet aqui? Posso usar?".
Para minha surpresa ela conseguiu pronunciar "internet" sem engolir a própria língua. Pensei se ela tinha alguma idéia do que estava falando...
"Sim. Só tenho que fazer um cadastro prá você."
Flashes da última vez em que fiz um cadastro desse tipo fuzilaram minha mente. Respeirei fundo, amarrei uma faixa preta nos olhos e saltei no abismo.
"Me empresta o seu RG então que eu preencho seu cadastro aqui."
Para minha surpresa o cadastro correu sem problemas. Ela ainda lembrava o próprio endereço e o telefone. Porém, meu sossego já estava com a mira laser apontada para a testa.
"Mocinho!"
"Sim..."
"Como faço prá ver o site da Ana Maria Braga?"
"É só abrir o Internet Explorer e digitar o endereço."
"Hã?"
Enquanto ela olhava pro computador e para o teclado era possível ouvir as engrenagens gastas e enferrujadas rodando em velocidade máxima. Levantei-me e, com toda presteza que há de existir num homem, caminhei até ela e abri o Internet Explorer.
"Obrigada mocinho. Você pode digitar o endereço também?"
Tudo bem. Nada que uma rápida visita ao Google não resolva.
"Pronto. Agora é só clicar onde a senhora quer ir e navegar no site."
Vagarosamente ela levou mão ao mouse e um leve soriso de satisfação surgiu em meu rosto. Enquanto eu me virava e caminhava tranquilamente de volta ao balcão, ouvi um som seco, como se alguém estivesse batendo com a cabeça numa janela de vidro. O som se repetiu. Novamente...
Olhei na direção dela para identificar a origem daquele som horrível apenas para ficar em choque. A cena presenciada por mim naquele instante tomou cerca de 30 segundos para ser assimilada. Enquanto tentava colocar algum sentido naquilo, senti que o planeta parava de girar vagarosamente. Ao longe era possível ouvir urros de um exército desconhecido marchando em minha direção com sede de sangue.
A senhorinha de idade transformara-se num ser hediondo enquanto erguia o mouse na altura dos olhos e batia com este no monitor. Depois de algumas tentativas frustradas ela me dirigiu a palavra. Sua voz, que antes era doce e comedida, tornara-se um som rouco e abafado como se um cachorro fosse fechado dentro de uma caixa de papelão e jogado em um porta-malas.
"Mocinho, essa caixinha não tá funcionando!"
Pelo menos dois terços do meu cérebro estava derretendo e se convertendo em um poderoso analgésico que fora imediatamente arremessado em minhas veias.
Depois de alguns momentos de respiração profunda e de contar até o primeiro número com 6 dígitos, consegui dizer à senhorinha que a "caixinha" estava com problema, mas eu não teria outra prá trocar prá ela.
Ela levantou-se, agarrou sua sacola de compras e foi arrastada por esta para fora do recinto. Não me preocupei em cobrar o tempo que ela havia usado no computador, talvez por medo dela, ou de mim mesmo.
O horror se apresentara de tal forma que era difícil assimilar sua total complexidade. Aquela fatídica manhã havia se tornado agora parte de mim, um momento que levaria comigo para sempre. O horror... o horror.
quinta-feira, 22 de maio de 2008
segunda-feira, 19 de maio de 2008
O verdadeiro medo
Algumas pessoas dizem que o medo está no coração do homem. Outros dizem que o medo está nas profundezas da mente. Eu digo que o verdadeiro medo está na ignorância, no desconhecido, no que não pode ser compreendido... o medo está um palmo além do nosso alcance.
Nem sempre eu pensei assim. Houve um tempo em que eu acreditava nas pessoas, acreditava na capacidade de pensar e na bondade implícita em cada ato. Tolo... Se ao menos eu conhecesse a verdade, talvez não estaria onde estou agora...
Tudo começou com uma idéia inocente de construir uma lan-house. Um negócio que, se bem administrado, poderia trazer bons lucros e era exatamente isso que minha família necessitava nesse momento. Meu pai aposentara há poucos meses e nós procurávamos algum ramo para investir o dinheiro recebido.
Uma lan-house era o mais apropriado no momento, pois eu já tinha conhecimento em computadores (e em jogos também) e poderia tranquilamente manter esse tipo de comércio funcionando em pleno vapor. Ledo engano. A palavra "tranquilamente" caberia em vários outros lugares, mas não aqui.
O verdedeiro medo se apresentou diante de mim já no primeiro ano de trabalho. Permita-me esclarecer que estou falando de um estabelecimento já frequentado por bandidos e traficantes (posteriormente banidos do recinto) e que já foi assaltado à mão armada duas vezes, então não venha me dizer que não sei do que estou falando.
Lembro-me com uma nitidez impressionante, como se estivesse assistindo à tudo novamente nesse momento.
Um garoto, em seus 12 ou 13 anos, aparentando vir de uma boa família e bem vestido (fique claro que para os padrões de uma lan-house, bem vestido quer dizer "usando calça e camiseta sem remendos"). Porém, algo me dizia para correr! Correr para longe e não olhar prá trás nem se o próprio Steve Jobs me chamasse! Não era sua aparência que me levava a ter esses pensamentos, era o seu olhar... como se ele fosse um exímio jogador de xadrez analisando cada possibilidade de acontecimento, só que não tivesse consciência de nada disso. Seus olhos olhavam cada um em uma direção e seu cabelo completamente desalinhado entregava que aquele garoto tinha um problema.
"Qual seu nome?"- Eu disse. Até hoje me arrependo dessa pergunta impensada.
"Hã? Hmm... Pedro."
"Tudo bem então, Pedro. Você vai jogar?"
"Hã? Agora?"- Não... na próxima era glacial...
"Sim. Vamos fazer o seu cadastro."
Eu sentia meu coração acelerando mas não sabia explicar o real motivo disso. Hoje percebo que meu corpo estava se preparando para reagir, carregando minha corrente sanguínea com adrenalida e deixando meus (poucos) músculos ativados para uma eventual emergência.
"Seu nome?"
"Hã... Pedro."
"Seu nome completo..."
"Hmm... Pedro... Souza Silva."
"Certo, Pedro. Seu endereço?"- E meu cérebro tilintava de agonia... meu olho esquerdo estava tendo espasmos cada vez menos intermitentes e eu ouvia um zunido alto como se alguém encaixasse um apito na saída de ar de uma turbina.
"Rua antonio lamino, 12."
"Você tem telefone?"
"Tenho!"
"Qual o seu telefone prá eu poder preencher seu cadastro?"
"É da vivo!"
Nesse momento meu universo explodiu. Luzes inexplicáveis surgiram no meu campo de visão e todos os espíritos de todos os meus ancestrais ressurgiram do além para segurar toda aquela energia negativa que acabara de ser disparada dos meus olhos na direção do garoto.
O chão tremeu, o céu ficou escuro e fumaça de enxofre era soprada de cada rachadura existente nas redondezas! O cavalo amarelo da morte estava me esperando há alguns metros dali como um cãozinho que acabara de apanhar com o jornal.
Subitamente o olhar ameaçador do garoto se transformou e me fitava como se pedindo clemência. As atrocidades que passaram pela minha cabeça fariam com que a inquisição parecesse uma sessão de massagem tailandesa. O clima tornara-se tão denso que era possível cortar o ar com uma daquelas facas de passar manteiga na torrada...
Aos poucos o terror se dispersou. O cheiro de morte e calamidade deu lugar ao bafo quente soprado pelos computadores e o odor de salgadinho emla-chips. O menino ainda me fitava, esperando uma reação minha. Era possível sentir sua alma clamando por misericórdia...
Depois disso, ele finalmente conseguiu me dizer o número do telefone dele e eu fui capaz de finalizar seu cadastro sem maiores danos à minha sanidade.
O verdadeiro medo está no desconhecido... o verdadeiro medo está no que não podemos compreender....
PS: O nome do indivíduo foi geneticamente alterado neste relato para preservar sua ignor... identidade.
Nem sempre eu pensei assim. Houve um tempo em que eu acreditava nas pessoas, acreditava na capacidade de pensar e na bondade implícita em cada ato. Tolo... Se ao menos eu conhecesse a verdade, talvez não estaria onde estou agora...
Tudo começou com uma idéia inocente de construir uma lan-house. Um negócio que, se bem administrado, poderia trazer bons lucros e era exatamente isso que minha família necessitava nesse momento. Meu pai aposentara há poucos meses e nós procurávamos algum ramo para investir o dinheiro recebido.
Uma lan-house era o mais apropriado no momento, pois eu já tinha conhecimento em computadores (e em jogos também) e poderia tranquilamente manter esse tipo de comércio funcionando em pleno vapor. Ledo engano. A palavra "tranquilamente" caberia em vários outros lugares, mas não aqui.
O verdedeiro medo se apresentou diante de mim já no primeiro ano de trabalho. Permita-me esclarecer que estou falando de um estabelecimento já frequentado por bandidos e traficantes (posteriormente banidos do recinto) e que já foi assaltado à mão armada duas vezes, então não venha me dizer que não sei do que estou falando.
Lembro-me com uma nitidez impressionante, como se estivesse assistindo à tudo novamente nesse momento.
Um garoto, em seus 12 ou 13 anos, aparentando vir de uma boa família e bem vestido (fique claro que para os padrões de uma lan-house, bem vestido quer dizer "usando calça e camiseta sem remendos"). Porém, algo me dizia para correr! Correr para longe e não olhar prá trás nem se o próprio Steve Jobs me chamasse! Não era sua aparência que me levava a ter esses pensamentos, era o seu olhar... como se ele fosse um exímio jogador de xadrez analisando cada possibilidade de acontecimento, só que não tivesse consciência de nada disso. Seus olhos olhavam cada um em uma direção e seu cabelo completamente desalinhado entregava que aquele garoto tinha um problema.
"Qual seu nome?"- Eu disse. Até hoje me arrependo dessa pergunta impensada.
"Hã? Hmm... Pedro."
"Tudo bem então, Pedro. Você vai jogar?"
"Hã? Agora?"- Não... na próxima era glacial...
"Sim. Vamos fazer o seu cadastro."
Eu sentia meu coração acelerando mas não sabia explicar o real motivo disso. Hoje percebo que meu corpo estava se preparando para reagir, carregando minha corrente sanguínea com adrenalida e deixando meus (poucos) músculos ativados para uma eventual emergência.
"Seu nome?"
"Hã... Pedro."
"Seu nome completo..."
"Hmm... Pedro... Souza Silva."
"Certo, Pedro. Seu endereço?"- E meu cérebro tilintava de agonia... meu olho esquerdo estava tendo espasmos cada vez menos intermitentes e eu ouvia um zunido alto como se alguém encaixasse um apito na saída de ar de uma turbina.
"Rua antonio lamino, 12."
"Você tem telefone?"
"Tenho!"
"Qual o seu telefone prá eu poder preencher seu cadastro?"
"É da vivo!"
Nesse momento meu universo explodiu. Luzes inexplicáveis surgiram no meu campo de visão e todos os espíritos de todos os meus ancestrais ressurgiram do além para segurar toda aquela energia negativa que acabara de ser disparada dos meus olhos na direção do garoto.
O chão tremeu, o céu ficou escuro e fumaça de enxofre era soprada de cada rachadura existente nas redondezas! O cavalo amarelo da morte estava me esperando há alguns metros dali como um cãozinho que acabara de apanhar com o jornal.
Subitamente o olhar ameaçador do garoto se transformou e me fitava como se pedindo clemência. As atrocidades que passaram pela minha cabeça fariam com que a inquisição parecesse uma sessão de massagem tailandesa. O clima tornara-se tão denso que era possível cortar o ar com uma daquelas facas de passar manteiga na torrada...
Aos poucos o terror se dispersou. O cheiro de morte e calamidade deu lugar ao bafo quente soprado pelos computadores e o odor de salgadinho emla-chips. O menino ainda me fitava, esperando uma reação minha. Era possível sentir sua alma clamando por misericórdia...
Depois disso, ele finalmente conseguiu me dizer o número do telefone dele e eu fui capaz de finalizar seu cadastro sem maiores danos à minha sanidade.
O verdadeiro medo está no desconhecido... o verdadeiro medo está no que não podemos compreender....
PS: O nome do indivíduo foi geneticamente alterado neste relato para preservar sua ignor... identidade.
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