Depois de milhares e milhares de anos de evolução, a raça humana desenvolveu diversas características que permitem sua adaptação ao ambiente. Um exemplo disso é a capacidade de fala, por exemplo, ou a habilidade de compreender o que o próximo está sentindo apenas de olhar em seus olhos.
Porém, o homem não parou de evoluir. O processo evolutivo ainda continua, e algumas habilidades que ainda não foram estudadas cientificamente começam a surgir e se tornar cada vez mais comuns, como a habilidade de prever quando algo ruim vai acontecer num curto espaço de tempo. Talvez por ainda não termos desenvolvido essa habilidade completamente, na maioria das vezes não sabemos interpretar os sinais e acabamos deixando de lado, mas essa habilidade está lá.
Podemos chamar de um sexto-sentido para o perigo. Você não sabe porquê, só sabe que não deveria ir por aquele caminho ou entrar naquele lugar. Em um fatídico dia eu tive essa sensação, e pude comprovar como a evolução humana está dando o próximo passo.
Era uma tarde de terça-feira. Faziam algumas semanas que não chovia e o ar estava seco, difícil até de respirar. O asfalto quente tostava as bordas dos chinelos havaiana. As árvores pareciam curvar-se sob sua própria sombra e os mais velhos tinham alucinações devido ao calor intenso.
Nessa época eu já estava trabalhando há um bom tempo naquele mesmo lugar e conhecia boa parte da clientela. Conseguia até mesmo traçar um perfil dos tipos de clientes que frequentavam o lugar. Porém, naquele dia, algo estava errado. Não sei dizer se era o vento, a cor estranha que os vidros dos carros refletiam ou o cheiro de strogonoff de frango que eu sentia em todo lugar, mas alguma coisa estava errada.
O local estava com um bom movimento, o que significa que entravam e saíam muitas pessoas do recinto e em boa parte delas eu nem prestava atenção, mas uma criança que entrou me chamou a atenção. Não entendi o meu súbito interesse nela, mas alguma coisa naquela figura não se encaixava no todo. Os olhos dele eram fixos um no outro, com um grau de “vesguice” que tornava obrigatório o uso de óculos escuros, obrigatoriedade essa que não havia sido repeitada. Estava vestido com roupas novas, o que não quer dizer que estivesse bem-vestido. A bermuda verde contrastava com a camiseta roxa e o tênis amarelo que delatavam o sadismo de sua mãe ao vestí-lo. Mas não era nada disso que me chamava a atenção. Era apenas a sensação de que alguma coisa ruim estava para acontecer e que aquela criança estaria envolvida.
-”Moço!” Só com essa palavra meu coração disparou. Por algum motivo, detesto essa alcunha.
-”Moço! Quanto custa meia hora?”
-”Um real.” Respondi cautelosmente.
-”E uma hora?” Seus olhos tentavam desesperadamente encontar o foco.
-”Dois reais.” Minhas mãos suavam...
-”E duas horas?” Seu corpo lutava contra si próprio tentando fixar o olhar.
-”Quatro reais.”
Nesse momento meus dedos já estavam anestesiados de tanta tensão. Alguma coisa muito errada estava prestes a acontecer e eu iria presenciá-la de camarote. O menino piscava os olhos cada vez mais rapidamente e a cabeça dele virava de um lado pro outro em ângulos agudos, talvez tentando focalizar pelo menos um dos olhos no interlocutor. Os músculos dos meus ombros estavam extremamente tensos e meus ouvidos zuniam... e então ele disse:
-”Então me vê uma fanta.”
Depois de milhares de anos de evolução, de grandes pensadores, de grandes civilizações e diversas descobertas que mudaram o mundo, é isso que acontece? Darwin estava errado... A raça humana não só evoluiu como também subdividiu-se dando origem à meninos que não pertencem a lugar algum.
Demorei alguns segundos para interpretar o pedido. Na época os refrigerantes custavam R$1,50. Não haviam tabelas de preço no campo de visão dele (não estou dizendo que esse campo de visão exista ou algum dia tenha existido prá ele). Suas perguntas foram todas relacionadas ao valor da hora, porque então pedir o refrigerante? Seria ele capaz de deduzir o valor do refrigerante levando em conta o preço da hora, a inflação, as taxas de juros e o custo de compra e tranporte de um produto? Acredito que não. Aquilo havia apenas sido um acidente genético do qual apenas os pais devem ser culpados.
Depois dessa linha de pensamento passar como um tufão pela minha mente, peguei uma fanta e coloquei no balcão. O menino pagou e foi embora. Enquanto ele saía, pude ver uma pequena nuvem se formando no céu. O carro no qual o menino entrara estava ocupado por uma figura escura que não pude identificar... melhor assim.
Mais tarde choveu naquele. O clima seco e o asfalto quente agora eram apenas uma lembrança. Mas aquele momento de terror vai estar sempre nítido na minha memória, talhado na pedra, queimando sob o sol...
segunda-feira, 9 de junho de 2008
Assinar:
Postagens (Atom)