“Moço! Moço!” Gritava incessantemente o garoto da última cadeira da sala dos fundos. “Moço, põe o jogo de 'arminha'?”.
E lá vai o “moço”, com toda a paciência do mundo, tentar adivinhar em qual dos 50 jogos de arminha o garoto pretendia gastar os seus créditos.
“Qual jogo você quer jogar?”
“Aquele que só aparece a mão do cara!” - Ótimo. Reduzimos as opções para 47...
“Mas qual? Tem um monte de jogos assim!”
“Aquele que tem uma casa e os 'hominho' atira!”
“Ah tá. Sei qual é.” - Essa foi minha última frase antes de abrir um jogo de carro aleatório e ir correndo para o balcão.
O dia estava cheio. Desde cedo havia muito movimento. Era o primeiro dia do ano e é costume em nossa cidade dar o chamado “bom princípio”, onde crianças enlouquecidas têm autorização dos pais para mendigar e correm de casa em casa pedindo moedas, trocados ou doces (ou os três). Existem lendas de crianças que já juntaram cerca de cem reais só em moedas num único dia!
Pobres dos pais festeiros que beberam demais na comemoração da noite anterior e só queriam dormir um pouco mais. E pobres crianças também que encontram esses pais mal-humorados que dizem palavras feias pelo interfone.
Há alguns anos atrás o destino certo desse dinheiro arrecadado seria a sorveteria ou a doceria, mas hoje em dia as crianças tem uma opção menos calórica: as lan-houses.
Sacos e sacos de moedas são depositados em todas as lan-houses da cidade, e isso é bom! É bom para os donos, que tem um ótimo “bom princípio”, é bom para as crianças, que tem uma diversão saudável e também bom para os pais que têm um pouco de paz e sossego na cura da ressaca.
Na correria tresloucada das crianças pelo recinto, ficava impossível controlar quem poderia ficar na sala do fundo, destinada apenas aos usuários, e quem ia esperar na sala da frente. Tudo estava cheio. Muitos gritos de “Seu noob!” e “Moço! Moço!” ecoavam manhã a dentro. Até que ele entrou...
Eu vi apenas um borrão cortando a sala, um arrastar de cadeiras e um tilintar de moedas, nessa mesma ordem. Um menino havia entrado, jogado um punhado de moedas e sentado em uma cadeira na sala do fundo antes que as moedas batessem na madeira do balcão. Eu me dirigi calmamente até a sala do fundo e, como um lobo que segue um rastro de sangue, segui o perfume natural peculiar do menino até a última cadeira. Estava tão calmo que se Buda tivesse me visto, teria comido as próprias mãos de tanta inveja.
“Menino, foi você que deixou as moedas no balcão e entrou correndo, não foi?”
“Foi moço! Põe o joguinho prá mim aqui!”
“Vamos lá na frente que tenho que fazer o seu cadastro!” - continuei essa frase na minha cabeça: “seu moleque fedido do #$%@*&!”
Como era de se esperar, o menino não sabia o próprio endereço ou a data de aniversário, que devia ser nove meses depois de algum carnaval entre 96 e 98. Depois de muita paciência e muitas perguntas repetidas, consegui completar pelo menos o nome do meu pequeno algoz e liberei o cadastro dele (naquela época a lei de lan-houses era bem mais branda).
Contei R$4,43 centavos no amontoado de moedas de 10 e 5 centavos depositados em cima do balcão, que foram imediatamente creditados na novíssima conta do meu novíssimo cliente (literalmente).
Nesse momento o recinto estava em pé de guerra. Dezenas de crianças sem pai nem mãe gritavam e xingavam loucamente uns aos outros. Nesse ambiente até mesmo Jó teria vendido sua alma em troca de uma metralhadora, mas eu estava firme. Uma artéria havia surgido na minha testa ameaçando saltar para fora e espancar cada individuo naquela sala a qualquer momento. Foi então que ouve-se o jargão, uma frase tão antiga quanto o tempo porém tão atual, o mantra das crianças acéfalas: “Moço! Deu pau!”
Não haviam nem 10 segundos que o menino louco voador (que eu apelidei carinhosamente de “Imundinho”) sentara na cadeira e já havia travado o computador abrindo 8 janelas de um jogo qualquer que minha memória insiste em não me dizer.
Eu cerrei os dentes, rasguei minha camiseta ao meio e saltei tão rápido na direção daquele pescoço sujo que ouviu-se um estouro e as janelas de todo o recinto se arrebentaram. Urrei como um animal enquanto erguia meu troféu acima da cabeça para que todos vissem! E então eu acordei...
Estava parado no mesmo lugar, em pé, olhando o menino. Seu rosto não tinha emoções, ou estava muito sujo para deixar passar qualquer movimento facial. Percebi que ele tremia enquanto eu andava em sua direção... talvez ele tivesse notado o sangue fervendo na minha cabeça ou a força com a qual eu cerrava os punhos. Malditas bons costumes. Se fosse no tempo das cabernas...
Reiniciei o computador e disse: “Abra somente um jogo de cada vez. Um... jogo... por... vez...”. Essas últimas palavras passavam raspando pelos meus lábios. Se existe um limite para a paciência humana, hoje ele havia sido destruído e fixado num nível 3 vezes maior.
O restante do dia transcorrera sem maiores incidentes. Este ficaria no topo da lista de eventos infelizes por um bom tempo, mas não muito...
Felizes eram os nossos ancestrais que destruíam as fontes de suas irritações...
segunda-feira, 18 de agosto de 2008
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