segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Versão em áudio EXCLUSIVA

Numa tarde fria e chuvosa, em algum lugar distante, havia um homem. Um homem solitário, desocupado e, principalmente, criativo. Sua mente vaga pela imensidão do ócio, vasculhando as profundezas da mente em busca de algo para ajudar a passar o tempo e eis que surge a idéia!

Com uma equação que soma um computador e um editor de som, multiplica por um fã insano e divide tudo pelo sofrimento de um funcionário de lanhouse expresso em forma de contos, o resultado é uma "rádionovela" do lanhouse do medo!

Quero, agradecer, ao leitor, Baltar, por perder, seu tempo, e, sua sanidade, gravando e editando, o capítulo 6 - O Perfume da Destrui,ção. O resultado ficou muito bom.

Temam! O mundo do terror está se expandindo para outras mídias!

Baixe o arquivo clicando aqui.

Porém, se você não quer ocupar espaço no seu computador, ouça a versão integral aqui mesmo.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

O Perfume da Destruição

O dia estava estranhamente alegre. Os pássaros cantavam, o sol brilhava e os clientes se comportavam. Apenas notícias boas apareciam na televisão e o mundo estava em paz. Tudo estava indo muito bem... bem até demais...

Uma pessoa normal não saberia interpretar os sinais, mas um indivíduo sagaz como eu entende que a tranqüilidade vem antes do apocalipse.

O raios de sol entravam no recinto pela janela da frente e junto com eles veio um feliz passarinho que se chocou contra o vidro. O som da pancada seca fez com que eu me distraísse com o agonizante passarinho e não percebesse a tragédia iminente. O céu mudou de cor repentinamente, como se uma explosão atômica tivesse nos trazido um inverno nuclear. O clima ameno transformara-se em um frio aterrador. Todos os sinais de mau agouro estavam batendo em minha porta ao mesmo tempo. Foi então que ela entrou.

A princípio não me preocupei com a figura que havia entrado e se aconchegado no sofá, revirando páginas e mais páginas de textos rabiscados. Ainda estava chocado com o destino cruel do pobre passarinho. Mais tarde eu invejaria a sorte deste abençoado animal que deixara a terra dos vivos antes dos acontecimentos que relatarei a seguir.

Era uma mulher franzina, beirando seus 50 anos, magra como se nunca tivesse sido apresentada á uma boa refeição. Seus óculos eram enormes e com grossos aros em volta da lente. Seu cabelo dava a impressão de ter sido colocado ali há pouco tempo e ainda estar com a tinta fresca. Mas sua roupa... sua roupa era um espetáculo à parte!

Ela usava uma calça jeans azul com estampas coloridas ao lado, uma blusa de uma cor que fiz questão de esquecer e uma jaqueta feita de um material que imitava uma imitação de couro. Usava tênis cinzas e várias pulseiras. Eu tinha a clara impressão de que a pobre mulher pegara roupas de sua filha mais nova (pois a mais velha deveria estar num asilo) e ajustado para servir naquele formato corporal extremamente plano.

Além de tudo isso, ela fumava como uma condenada.

Você deve estar imaginando que eu a vi fumar em algum lugar, ou que os seus dentes amarelos delataram o mau hábito, ou que ela guardava um maço de cigarros em algum lugar visível, mas eu vos digo que o sinal era muito mais sutil do que qualquer um desses. Era o simples fato dela emanar um fabuloso perfume de nicotina que me fez chegar a essa conclusão. Era como se ela carregasse os bolsos cheios de tabaco ou cultivasse a própria planta nas axilas. O cheiro era muito forte e por pouco não me fez perder os sentidos.

A mulher levantou-se, vagarosamente, e dirigiu-se ao balcão.

- Moço! - Já havia começado a conversa de forma errada...
- Moço! Você faz serviço de digitação?
- Claro! Pode deixar ele aqui que deixo pronto prá amanhã! - O forte cheiro me impedia de pensar claramente.
- Não, mas eu tenho que ficar com você senão você não vai entender minhas anotações!

Ela me olhou de um jeito estranho, como se estivesse ouvindo os rangidos das engrenagens dentro da minha cabeça procurando uma saída para não ter que aturar ela ao meu lado.

- Tudo bem, mas eu tenho compromisso daqui 10 minutos. Tem que ser rápido!

Foram 56 minutos de terror. Um dragão teria inveja da “baforada de fogo” que eu fui obrigado a suportar. Cada frase dita levava um pouco do meu olfato embora. Meus olhos estavam vermelhos e lacrimejantes. Minha pele estava ressecada e percebi que meu cabelo começara a cair.

O texto dela tratava de um programa de rádio sobre homenagens póstumas, pessoas mortas recebendo mensagens de conforto e admiração. Uma enxurrada de vírgulas criava resultava em pérolas como “um abraço muito, especial, para nossos ami, gos, portugueses” (não foi um erro de digitação) e a justificativa era sempre a mesma: “É que é texto oral!”

Depois de algum tempo ela foi embora, mas deixou comigo um pedacinho de si que ficou por muito tempo latejando em minhas narinas. Ela retornou por várias vezes ainda, sendo atendida por pessoas diferentes, mas todos nós ficávamos com uma única palavra na mente depois de sua partida: Arma Biológica.