Eu não sei sobre os anjos, mas é o medo que dá asas aos homens. Diante de uma situação de terror cada pessoa reage de uma maneira: alguns entram em pânico, outros desmaiam e uma pequena parte reage violentamente. Porém, venho falar-lhes de uma forma diferente de reação, que pode ser considerada como uma “não reação”. Venho falar-lhes da indiferença frente ao terror.
Tudo aconteceu numa fatídica manhã de quarta-feira. O dia estava fresco e tranqüilo, o vento soprava levemente do leste e os animais sorriam uns para os outros. Tudo estava completamente normal. Porém, normal é algo totalmente bizarro nesse lugar... era como se o próprio destino estivesse tentando me avisar do que estava por vir através de situações fora da realidade.
O movimento estava razoável, com apenas dois usuários na sala do fundo. Eu, como de costume, me ocupava matando nazistas e salvando o mundo de ameaças letais. Foi então que entrou no recinto uma figura que olhei de canto de olho e reconheci como um dos clientes costumeiros. A sombra entrou, parou ao meu lado e ficou lá durante uns 20 segundos me olhando. Em momento algum olhei diretamente para ele ou lhe dirigi a palavra, pelo menos até ser interrompido do meu massacre diário no computador.
- “Dá tudo aí!” - disse ele com voz baixa.
- “Dá o que?” - respondi ainda sem olhar prá ele e entrando na brincadeira.
- “Dá tudo aí, porra!”
Nesse momento minha cabeça foi empurrada para o lado bruscamente por um objeto. Calmamente pausei o jogo e me virei para ele como se o empurrão tivesse sido um mero acidente. Vagarosamente, enquanto minha visão entrava em foco, construía a imagem clara de um revolver calibre 22 com 6 balas no tambor e um adolescente com uma camisa amarrada na cabeça.
Finalmente, depois de quase 2 minutos do início da ação, eu percebi que estava sendo assaltado. Além disso, percebi que estava sendo assaltado por um pré-adolescente com uma camisa do Corinthians enrolada na cabeça...
O rapaz repetia com voz baixa: “Dá tudo aí! Dá tudo aí!”.
Enquanto ele falava com a voz rouca eu abria o caixa e pensava em coisas como “Quem é que assalta uma lan-house de manhã quando nem entrou dinheiro?” ou “Será que ele vai querer levar um cheetos?” até que em dado momento lembro-me de dizer “Porque você tá falando tao baixo? Só tem a gente aqui!” e recebi um “Calabocamaluco!” como resposta.
Peguei o dinheiro do caixa, juntei tudo e estava separando as notas por valor (não me pergunte o motivo) quando o meu amigo corinthiano disse “Tá contando a grana? Anda logo com isso aí!”.
Pela primeira vez agi rapidamente: entreguei o dinheiro e agradeci (maldita gentileza).
Durante alguns segundos refleti sobre o ocorrido. Liguei para casa e pedi ao meu pai (administrador da empresa) mais dinheiro trocado para continuar trabalhando. Respondi a pergunta óbvia “Acabou?“ com “Sim. Tudo.” e expliquei ao telefone rapidamente o ocorrido.
Logo após liguei para a empresa que fazia a vigilância do recinto, que compareceram rapidamente depois de 35 minutos.
Meu prejuízo não foi grande e além disso aprendi duas grandes lições: cuidado com corinthianos armados e muita calma nessa hora!
sexta-feira, 8 de maio de 2009
Assinar:
Postagens (Atom)